Vyšehrad, Praga, 5 de maio de 2019 – Edição 16

Um Continente de Questões

Estas últimas semanas têm sido as mais agitadas nas esquinas europeias em mais de uma década. Como se não bastassem os problemas que são típicos às nações que sofrem com os índices abissais de atividade, os poucos que restam testemunham uma série de eventos que colocam em dúvida a capacidade do micronacionalismo em resistir à turba de tensões políticas que se alastram pelo continente europeu.

O mais delicado destes episódios, sem sombra de dúvida, é a sedição praticada por um grupo que até tempo recente estava perfeitamente acomodado ao funcionamento do sistema político alemão. Desde o estabelecimento do Ducado da Borgonha, de dentro das fronteiras do Kaiser, pouco ou simplesmente nada era dito pelos alemães com relação ao funcionamento e legitimidade do condomínio borguinhão. Nem mesmo aquele grupo que se levantaria contra a legalidade.

Faltava, logicamente, um estopim e um fiador para originar uma causa sem legitimidade histórica. A sorte sorriu aos futuros inconfidentes no momento do estabelecimento de uma Espanha independente. A Questão Espanhola foi a solução para outro episódio, a Questão Sueca, hoje completamente pacificado e originando, além da Espanha, a Escandinávia (outrora Suécia, Noruega e Terranova). O problema, no entanto, foi o fato do reino espanhol não reconhecer os supostos “direitos dinásticos” aragoneses de alguém que no princípio da vida fundou um país chamado Bizâncio. Uma coisa sem conexão com outra, exceto por sucessão de direitos conjecturais que se imaginou ter. Pronto! A motivação para a sedição estava pronta, faltava, no entanto, um patrocinador. E ele se revelou na extremidade oeste da Península Ibérica.

Surgiu assim a Questão Borguinhã. De um lado, a força política da Alemanha e os condôminos maurenses que administravam a Borgonha. Do outro, os sediciosos que galvanizaram sua causa com o mecenato político de um rei português (e queixoso do Reich) recém inaugurado após uma manobra palaciana facilitada por seu quase-predecessor. Mas mesmo este relevante apoio logo minguou quando o autoproclamado “rei da Bélgica” foi adotado e na sequência renegado pela Casa de Portugal e Algarves.

A Questão Borguinhã então passou a conviver com outra. A Questão Francesa também chamada de Golpe de Quatro de Maio ou simplesmente de um golpe-não-golpe-que-é-golpe. O rei Luis Filipe II já viveu emoções das mais eletrizantes no seu longo reinado em Paris, mas tem encontrado dificuldades, como muitos outros, em reservar espaço em seu cotidiano para os afazeres de Estado que tanto consomem nossa saúde emocional, especialmente nestas épocas áridas de retórica inflamada. Conclusão, uma camarilha “fidelíssima” se reuniu e o rei foi afastado-não-afastado. O trono francês foi declarado literalmente vago por uma junta que alega, ao contrário da literalidade de seu manifesto, um gesto da “mais sincera lealdade” que alçou ao poder um regente até então cotado por Lisboa para entrar à força em Madri e destituir Tiago III. A mesma França, que caminhava para o entendimento com a Alemanha, agora desencadeia uma questão alegando “desinformação” de quem denuncia a verdadeira desinformação (de natureza semântica) de uma conjuração que declarou o trono vacante.

A Europa lusófona vive um espetáculo diplomático proporcionado pelas querelas entre seus povos. Após o colapso das antigas controvérsias entre as duas Porto Claro ou as lutas políticas em Sofia ou Reunião, o Velho Mundo assumiu o protagonismo do micronacionalismo em língua portuguesa e suas estruturas histórico-modelistas vem delineando o paradigma dominante do que se entende por Lusofonia na última década. Talvez o prognóstico mais otimista indique para o fortalecimento das identidades nacionais europeias e um adensamento das iniciativas diplomáticas em torno dos temas mais delicados e isto reverbere de maneira abrangente a todo o hemisfério. No entanto, é factual que a Europa continuará a ser um continente repleto de questões complexas entre as mais tradicionais nações em atividade e fonte de inspiração a todas as modalidades de Estado criados nos últimos vinte anos.